
entrevista por Rafael Martins
apoio por Junior Passini
foto por Guilherme Ramos
O Ecos Falsos é uma das atrações do Rock ‘n’ Beats em dose dupla desse final de semana. Eles tocam em Campinas, sábado (3), ao lado do Quarto Negro, e em Nova Odessa, no domingo (4), com os campineiros do Oito Mãos. É uma chance para quem não conhece a banda se familiarizar com o trabalho desses paulistanos. Mas se deixar essa chance de conhece-los passar -- e você não vai ser maluco, né? -, certamente em breve eles chegarão aos seus ouvidos.
Com a crise e perda de força das gravadoras, os intermináveis jabás das rádios, e a espetacularização da televisão, hoje a principal mídia para uma banda de rock -- e outros estilos -- é a internet. E poucas bandas sabem trabalhar nesse campo como o Ecos Falsos. Explorando bem as redes sociais, com destaque para a relação próxima do twitter e o site do grupo servindo como um portal para os lançamentos, eles lançaram o novo álbum, Quase, por partes, e on-line, privilegiando os singles, e assim colhendo opiniões imediatas de cada faixa, mas também instigando os fãs a esperarem o trabalho em formato físico -- como de fato ocorreu.
O vocalista, guitarrista, jornalista e outrora mais jovem brasileiro a escrever um livro (entenda a piada clicando aqui), Gustavo Martins, fala sobre as nuances do novo álbum do Ecos Falsos, da música no período “pós-myspace”, e divaga sobre as dificuldades e os caminhos artísticos e de divulgação que as bandas enfrentam hoje, na música independente brasileira. Confira abaixo.

Em relação as músicas e letras, o que mudou do trabalho de Descartável Longa Vida para o mais recente, Q.U.A.S.E?
Ecos Falsos: Para nós é um pouco difícil responder esse tipo de pergunta, porque os dois discos foram feitos pelo mesmo critério, que é o que nos agradava na época. Como o processo de composição do Quase foi mais coletivo, acredito que as pessoas sentiram uma diferença sim, talvez se possa dizer que ele é um disco menos “escrachado” que o primeiro. Mas a ironia continua ali nas letras, pelo menos no nosso modo de ver, talvez mais disfarçada só. E a parte musical mudou acho que por ampliar mais os timbres, usar mais teclados e eletrônicos.
Tanto no primeiro disco quanto no novo há participações especiais e isso parece que já é uma coisa da banda. Inclusive uma vez eu li que a participação do Tom Zé em A Revolta da Musa, do primeiro disco, vocês foram até a casa dele e na hora ele escreveu a letras e gravou. Foi isso mesmo? E com as outras participações, como rolou?
De fato eu fui na casa do Tom Zé, mas eu já tinha escrito a letra e mandado pra ele, ele só fez umas alterações na melodia. As outras participações foram a Fernanda Takai (simplesmente mandamos um e-mail pedindo pra ela cantar, e ela topou) e o Sérgio Serra, que já tinha visto uns shows e tocado com a gente. No disco novo foram amigos que a gente convidou: Érika Martins, Júlia Jups, Martin Mendonça, Martim do Zefirina, Rafael Laguna do Capim Maluco, Alejandro do Detetives e o Felipe, ex-Ecos.
Vocês bolaram uma forma diferente de distribuir o novo disco -- soltando os singles aos poucos. Aparentemente é uma idéia simples e que acaba tendo também um papel de marketing, já que querendo ou não o diferente chama a atenção. Foi essa a intenção? E qual o retorno até o momento?
Por um lado foi, claro. O retorno foi ótimo, chamou atenção pro disco e pra nossa proposta de experimentar coisas novas. Outro lado bom foi que os fãs puderam ir experimentando o disco aos poucos, prestando atenção nas músicas, então nos shows elas parecem já estar melhor “assimiladas”, digamos. Mas por outro lado vimos que ainda tem muita gente que quer ter o CD mesmo, então decidimos fazer uma prensagem.
Todo esse impasse sobre a forma de comercializar a música pós internet tem causado bastante divergência entre os profissionais da área (desde gravadoras ao cara que ensaia com os amigos na garagem). De um modo geral como isso afeta vocês seja na hora de compor, de pensar a divulgação e até na hora de ver qual o caminho que a banda deve tomar?
Na hora de compor, não afeta. Na hora de pensar a divulgação sim, afeta, porque vc tem que lidar com uma concorrência absurda por espaço, pela atenção das pessoas, então não dá pra contar só com a música, tem que ter sim um planinho pra capturar o interesse e estimular os fãs a espalharem isso também. O caminho a gente tenta prever com as informações que tem, mas na prática vai decidindo tudo na hora mesmo, hahah.
Ainda na mesma questão. No ponto em que a industria fonográfica se encontra hoje aliado às possibilidades que a internet oferece, você acho que está mais favorável para banda em relação a liberdade de não apenas criar, mas também administrar como a música é distribuída e vendida? Por quê?
Acho que está mais favorável sim, porque agora você tem mais bandas atuando, ou pelo menos chegando a um público pequeno mas razoável. Então democratizou, o que obviamente é melhor. Claro que a competição satura um pouco o público e é bem mais difícil você atingir uma massa grande agora, mas se pararmos pra pensar, qual é a vantagem de um artista vender milhões? Pro público, nenhuma, além de ter assunto em comum pra falar no bar. A variedade é sempre melhor. Do lado comercial, tem uma “desvantagem” que é o fato das margens de lucro serem muito menores, então as chances são altas de você ter que fazer tudo sozinho, sem contratar ninguém. Mas essas mudanças de paradigma afetaram todas as profissões, não só a música.
Hoje na música independente no Brasil, parece que o conceito faça-você-mesmo é predominante e realmente democrático e o Ecos Falsos é um exemplo disto (pelo menos é o que diz na Rolling Stones nº13). Como funciona a divisão de tarefas em relação a marcar show, divulgação, produção do site, blog, clip? Também em relação a parte musical? (Nesta pergunta gostaria que você deixasse bem dividido a parte de gerenciamento e musical).
Bem, a parte de gerenciamento agora está funcionando assim: eu (Gustavo) cuido da parte “institucional” da banda, digamos, relações com outras bandas, entrevistas, atualização do site, divulgação etc. Agora temos um cara, o Denis, que está ajudando na parte de produção dos shows (hospedagem, transporte, negociação de cachê, passagem de som etc.), que é uma parte da qual eu não estava mais dando conta.
O Daniel é o designer da banda, então ele cuida disso em todos os aspectos, das camisetas ao site e à capa do disco. O Davi (e o Daniel tb) cuida da parte de edição de vídeos e agora ele está montando nossa estrutura de ensaios em um estúdio na casa dele. O Vini assumiu agora a parte dos pedidos feitos na loja do site (falar com os clientes, envio etc.), e o BB está se especializando na parte técnica, é o cara que vai atrás dos equipamentos que precisamos para o show melhorar etc.
Da parte musical, até o primeiro disco eu centralizava um pouco mais em mim as decisões, mas agora estamos fazendo um esforço consciente pra tudo ficar mais democrático, seja em letras ou arranjos. A composição sempre parte da ideia de um e vai sendo expandida por todos.
Acredito que vocês ainda não estejam se sustentando com a música que produzem, ainda sim são bastante ativos, parece que nos últimos três, quatro, cinco anos, estão em trabalho constante, inclusive com shows em quase todo final de semana. Como é conciliar banda, trabalho, família, enfim vida pessoal?
É bem difícil, vou te contar. O tempo que você dedica à banda diversas vezes prejudica outros campos, você não se dedica à sua família, namorada ou ao trabalho tanto quanto poderia, e isso pode se tornar bastante penoso, ainda mais com a dificuldade do mercado independente no Brasil.
Programa do Jô, Acesso MTV foram algumas das aparições recentes em programas de TV de certa relevância, até parece um plano de marketing para divulgação do novo disco. Como rolaram esses contatos e já é possível calcular o retorno desta exposição?
Se for ver, eu acho que o Ecos Falsos é a banda que mais espaço de mídia conseguiu por conta própria, sem nunca ter sido “adotada” por nenhum criador de hype, sem assessoria, produtor ou coisa do gênero. Nossa estratégia para fazer isso meio simples, ficamos de olho no que está acontecendo e tentamos tirar o máximo proveito dos nossos diferenciais. A gente pega o que faz e tenta fazer “virar pauta” (minha formação em jornalismo serviu pra alguma coisa, hahaha). O que aconteceu recentemente com o Jô Soares não foi exatamente um plano de marketing para o novo disco, foram mais desdobramentos dessa pauta que a gente (junto com a Monstro) vendeu pro Jô Soares ainda em 2008. Mas as coisas são demoradas por lá, então só foi rolar no fim de março de 2009, aí a exposição se fez sentir no aumento brusco de acessos ao nosso site e na nossa participação em outros programas.
Me parece que chegou a pegar o finzinho da era vinil e da era cd, ou seja, uma época que você comprava um, dois discos por mês e escutava ele a exaustão e até gravava umas fitinhas k7 pros amigos. Hoje é possível ter acesso a muita informação, porém me parece que poucos realmente se aprofundam, principalmente a geração que entrou na adolescência já neste milênio. Qual a sua opinião em relação a está aparente superficialidade? E qual o futura da industria musical em termos comerciais e mais você acha que o cd já é um item obsoleto?
Já fiz muita mixtape em K7 com músicas de rádio, tenho trocentos CDs, enfim. Acho ainda um pouco cedo pra fazer um diagnóstico sobre os efeitos da internet em uma geração toda, mas já é evidente que essa “dispersão da atenção” é uma realidade. Até porque a atenção é um recurso limitado. Quando você oferecia poucas opções, era possível se aprofundar, com muitas, é natural que ela se disperse.
E a gente tem que colocar certas coisas em perspectiva, também: nossa paixão por discos era fruto de uma limitação tecnológica, você tinha que juntar um certo número de músicas para fazer um disco ser viável comercialmente, pagar a fábrica, a gravadora, a loja, o estúdio, tinha que ter X singles, vender tanto… Toda a indústria se organizava em torno da distribuição, até por isso as gravadoras se chamam “gravadoras”. Então, pra nós, o natural era ouvir a música desse jeito, em discos que tinham intervalos de pelo menos um ano, você digeria o disco como uma obra completa e tal… Aí vem a internet e muda tudo. Quem disse que é menos certo conhecer só uma música de cada banda? Geralmente é só isso que ela tem a oferecer mesmo. Acho que se eu fosse adolescente hoje, estaria ouvindo música do mesmo jeito que eles, baixando mp3 de uma porrada de bandas e não conhecendo mais do que duas ou três, que realmente me interessariam.
Há um tempo atrás rolou certa polemica relacionada aos comentários que você fez e que foram publicas na matéria Festivais em Movimento escrita por Adriana Alves na Rolling Stones nº24. Qualquer dúvida possível sobre o que você pensa (e acredito a banda também) já foi esclarecida. Mas o que me chamou atenção realmente foi a frase: Não vejo porque, portanto, não tenhamos o direito a uma opinião -- e todo mundo com a mesma opinião, sempre, não é nada rock’n'roll. Você acha que exista muita ”brodagem” na música independente brasileira? Se sim, isto é uma coisa ruim, já que existe em toda profissão?
Ah, existe e eu acho ruim, da mesma forma que eu acho ruim a questão da “brodagem” em qualquer campo profissional. Infelizmente, privilegiar amigos em detrimento da qualidade do trabalho é uma constante humana, paciência, todo mundo faz isso em uma ou outra medida. Acho que quando praticada por jornalistas ou produtores musicais, profissões que teoricamente ganham para dar oportunidades iguais e valorizar a qualidade, a “brodagem” vira um desserviço, faz a gente deixa de conhecer coisas boas e ser submetido a um monte de porcarias. Mas enfim, é o jogo, eu também não dou razão a quem não é chamado pra festivais e fica reclamando de “panelinha”, o cara que faz um festival tem o direito de chamar quem ele quiser.
O que muita gente não entendeu daquela entrevista é que eu não estava acusando a Abrafin de fazer nada de errado, eu só quis dizer que, com dinheiro público envolvido, os produtores tinham que redobrar a atenção pra evitar essa “brodagem”, pois aí deixa de ser um desserviço e passa a ser uma coisa nociva mesmo, de um grupinho fechado que se sustenta ao custo de todo mundo. Mas que eu saiba a Abrafin não faz isso, que fique claro, eu conheço quase todos lá e são pessoas ótimas, o trabalho deles é muito importante.
Emendando na pergunta anterior. Quais os pontos positivos e negativos em relação a evolução da música independente no Brasil (digamos desde o Junta Tribo, quando esta “cena” começou a chamar a atenção dos meios de comunicação)?
Eu não vejo pontos negativos, acho que é uma evolução natural para corrigir essa distorção brasileira de ter um meio de comunicação absurdamente hegemônico e todo o resto orbitando em volta dele. É natural e é saudável que apareçam esses espaços intermediários, esse mercado não-tão-grande, mas que em um país gigante como o Brasil pode ser capaz de sustentar uma cena interessante, mais ousada, que nivele menos por baixo. A questão de chamar atenção dos meios de comunicação (primeiro os periféricos, depois os principais) é natural também, conforme o negócio ganha importância, vira pauta. Mas a gente tem que ser realista, não dá pra esperar que a cena independente vá “tomar o lugar do Faustão”, as coisas vão coexistir pelas beiradas, oxalá dando mais opções culturais para todo mundo, do caviar à coxinha vencida.
Ainda no mesmo tema. Hoje se dá a impressão que o “eixo Rio -- São Paulo” é um conceito falido em termos de visibilidade para uma banda, já que no momento não há nenhum festival independente representativo. Você concorda? E como vê isto?
Não concordo que o “eixo” esteja falido, se fosse o caso as bandas de fora de São Paulo não estariam se mudando pra cá. O Rio é um caso à parte, meio fechado em si mesmo e no esquema das gravadoras que ficam lá, não conheço muito para dizer mas as bandas cariocas me dizem que a situação é bem difícil. Já o espaço para música em São Paulo ainda é muito, mas muito maior do que em qualquer outra capital do Brasil, porque tem shows todos os dias da semana, e não concentrados em festivais semestrais ou anuais. Até por isso é difícil fazer um festival independente em São Paulo: todas as bandas que, juntas, formariam um grande evento em outro lugar, já tocam aqui frequentemente (e a dificuldade de se divulgar um evento de pequeno/médio porte aqui é bem maior).
O que eu acho que pode causar essa impressão é que, vindo de uma cidade com menos “concorrência”, digamos, uma boa banda hoje tem mais chances de chamar atenção, ganhar um edital pra gravar o disco ou viajar, tocar em festivais, aparecer nos jornais locais e nacionais, vir tocar por aqui com um pequeno hype rolando… do que uma banda igualmente boa de São Paulo. E o circuito independente “fora do eixo” ainda é uma novidade, ainda chama atenção uma banda ter vindo de Cuiabá, Porto Velho, Goiânia, enfim, sempre se faz mais barulho em cima desse fato. E eu acho isso muito justo, é uma espécie de “correção histórica” do foco ter se concentrado por tanto tempo em SP e no RJ. As bandas paulistanas, e garanto que essa opinião não é só minha, perderam um pouco da “graça” pros olhos da imprensa e do público especializado. Mas tudo bem, também: sendo boa, uma banda pode vir de qualquer lugar.
Falando sobre esse final de semana, vocês já conheciam o Rock n Beats antes de serem convidados para os shows? O que acham do projeto? O interior de São Paulo é um bom caminho para bandas da capital paulista, e de outros estados?
Já conhecíamos pela internet e por comentários de fãs de Campinas, que perguntavam quando a gente ia tocar na festa (o que é sempre um bom sinal). O que me chamou a atenção foi a curadoria da festa, sempre muito acertada na escalação das bandas -- se preocupando inclusive com a “liga” entre elas, o que é bem raro. E também os cartazes, a preocupação visual, além da relação com o site, enfim, sempre me pareceu um evento muito completo, muito bem pensado.
Quanto ao interior de São Paulo, eu acho realmente que é ele que tem potencial pra sustentar uma cena independente em São Paulo. Não tem nenhum outro lugar no Brasil com tantas cidades grandes e próximas, cidades plenamente capazes de sustentar uma casa de música alternativa, dando uma possibilidade maravilhosa de fazer turnês baratas. O único exemplo similar é o interior do Rio Grande do Sul, que nos anos 80 e 90 conseguiu sustentar uma cena de bandas de lá. Mas o interior de São Paulo tem muito mais cidades, muito mais público, só falta uma organização maior entre as casas e produtores -- e também a criação de uma cultura de shows durante a semana, mais cedo, sem aquele estigma de lugar sujo em que as bandas tocam muito tarde e com som ruim. Se isso rolar, dá pra ter shows legais toda a semana em todas as cidades, imagina a loucura.
O que esperam para sábado e domingo? Estão ansiosos pela dobradinha com o Quarto Negro, no sábado, e Oito Mãos, no domingo?
Esperamos que o público de Campinas faça bonito de novo, tivemos ótimas experiências por aí. O Quarto Negro já é de casa, já tocou até na festinha mensal do nosso estúdio, o Flamingo, fora que já era tudo truta da época do Ludovic. O Oito Mãos vamos tocar pela primeira vez, o que é bem empolgante também, inclusive por ser em Nova Odessa, uma cidade em que nunca tocamos. Isso ajuda a gente a ficar motivado -- com seis anos de banda, ainda tem muitas cidades e bandas pra conhecer.
Confira abaixo o porque você não pode perder o Rock ‘n’ Beats desse final de semana!














abril 3, 2010 às 14:44
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abril 29, 2010 às 19:25
[...] banda Ecos Falsos participou das últimas festas Rock’n'Beats (3/Abril em Campinas e 4/Abril em Nova Odessa). A [...]