Resenha escrita por Rái Mein
Trent Reznor é um cara inquieto e em constante mutação. Todos o chamam de ditador quando o assunto é Nine Inch Nails, porque NIN é Trent Reznor e Trent Reznor é, foi e sempre será NIN. Ali quem manda é ele, guiado pela sua lua. Dependendo como ela está, o “bicho pega” (principalmente) para o lado da banda, que vai de proibição dos músicos saírem no dia anterior ao show até obrigá-los (em cláusula de contrato) a fazer exercícios, academia, e eventualmente agredi-los nas apresentações ao vivo, ou seja: não é fácil ser um integrante do NIN. Reznor é imprevisível ao cubo, mas quem pensa que o cara começou em 1989, está redondamente enganado.
Já em 1983, influenciado por suas bandas favoritas e jogos de computador, entrou no Allegheny College onde estudou engenharia de computadores e música, juntou-se a uma banda local chamada Option 30. Depois de um ano na universidade, decidiu sair, para se dedicar integralmente para a musica. Mudou-se para Cleveland em 1985, juntou-se à banda The Innocent, no piano. Dessa investida, saiu o album Livin’ in the Street, mas ele desistiu depois de apenas três meses. Em 1986, apareceu como membro da banda fictícia, The Problems, no filme Light of the Day. Também se juntou a uma banda local de Cleveland Exotic Birds. Arranjou trabalho na Right Track Studio (conhecida agora como Midtown Recording) como continuo. O dono do estúdio, Bart Koster, comentou como Reznor “era concentrado em tudo o que fazia, que quando encerava o chão, ficava ótimo.”. Koster permitia que Reznor usasse o estúdio durante as horas de intervalo, período este que gravou as demos que acabariam se tornando o primeiro álbum sob o nome Nine Inch Nails, o seminal Pretty Hate Machine (mais tarde essas faixas foram lançadas como bootleg, com o nome de Purest Feeling).
Finalmente, no começo dos anos 90, “piração” total, Pretty Hate Machine elogiadíssimo por crítica e público, tour gigante, vendas maravilhosas dos 4 primeiros álbuns do NIN, rock, drogas, e até uma tour com David Bowie em 1995 (os jornalistas que acompanharam a tour narraram as festas pós-show como “festas da viadagem”)… Tudo muito bom, tudo muito bem, mas o mp3 tava começando a “comer solto” de 96 para frente, o Napster anarquizando a geral e finalmente a indústria fonográfica recebendo o troco pelas décadas de ganância e ignorância, dando os primeiros passos em direção à falência.
Os campeões de venda não curtiram nada disso. Lembra das palavras de ódio do Lars Ulrich do Metallica? Pois é, essa crise de vendas de CDs afetou os artistas cada um de um jeito e Reznor, após o período glorioso dos anos 90, começou a pirar na relação com a gravadora. Em maio de 2007, postou no site oficial da banda uma condenação à Universal Music Group (Interscope Records) pelos planos de distribuição para Year Zero, inclusive afirmando que o preço de varejo do álbum na Austrália como “absurdo”, acrescentando ainda que “como recompensa por ser um ‘fã verdadeiro’, você é roubado”.
Não é novidade que após 2005, as vendas de CD despencaram e continuam despencando, então, podemos especular que o cara pensou: “Vou ficar gravando álbum para gravadora ganhar nas minhas costas?” No começo de 2008 lançou, sem aviso prévio, uma barulheira infernal a lá Metal Machine Music (disco só de barulhos de Lou Reed, lançado em 1975). 36 faixas divididas em 4 partes, intitulado Ghosts disponibilizado para download gratuito, logo após aquela estória do Radiohead lançar a moda do “pague quanto quiser”. O cara ficou “puto” com Tom Yorke & Cia. Disparou nas entrevistas que se for para o fã baixar o álbum pagando $5 centavos, era melhor dar logo de graça.
Com um plano não revelado nas mangas, após dois meses, lançou outro álbum, também disponibilizando de graça e na íntegra na página oficial, o The Slip. Concebendo nova forma de se apresentar ao vivo, com luzes espetaculares e interativas, além de mapear a turnê de acordo com os locais de maior número de downloads do disco. Preservando, das idéias iniciais, somente a arte de como se socar/estapear/chutar um sintetizador, agredir a banda e quebrar os instrumentos depois de um show. Não foi o suficiente. Ele cansou de ser o NIN, da nova ordem musical, das “regrinhas” da gravadora e começou a ensaiar um verdadeiro fim para a banda.
Em 1º de abril de 2009, o dia da mentira, Reznor debochou descaradamente do roqueiro Chris Cornell, que lançou um álbum produzido por Timbaland, e anunciou que o NIN também estava trabalhando com o produtor no disco Strobelight. Claro que tudo não passou de uma “brincadeirinha” e, no final do dia, Trent publicou no site oficial da banda, onde a notícia tinha sido divulgada originalmente, que era mentira. No mês seguinte, do nada, sem aviso antecipado, o mesmo posta no Twitter um link chamado N.I.N.J.A.. Era um EP com 6 músicas inéditas, sendo duas faixas do NIN, duas do Jane’s Addiciton e duas dos Street Sweeper (banda do Tom Morello do Rage Against the Machine), que também rendeu uma tour.
É moçada… acho que Trent Reznor está meio de “saco cheio”, mas acaba de voltar sob o nome de How To Destroy Angels, a novíssima empreitada do mestre da inquietação. Reznor parou com a “drogaiada”, casou, jogou tudo pra cima e disse um enorme e sonoro “NÃO” ao esquema das gravadoras.
Calma, fãs tradicionais do NIN, a investida é boa! Esperem barulho, sequencer e distorção em tudo e acertem. A diferença é a macia e gostosa voz da esposa do Trent – Mariqueen Maandig (ex-West Indian Girl) – nas 6 faixas que compõem o EP, que pode ser baixado na página oficial do projeto.
Na primeira faixa, já se pode perceber que a pegada é NIN, ou seja a pegada é Trent Reznor, e o resto do álbum também. Mas tem algo diferente, e todos podem ter a certeza que é a “esposinha” quem faz How To Destroy Angels não ser mais um álbum do NIN. Fica a curiosidade para ver como ele montará isso ao vivo, já que o cara é fissurado em se reinventar no modo de se apresentar em cada nova turnê.
O primeiro álbum do grupo só sai mesmo no início de 2011. Até lá, por favor, DJ’s, pensem à respeito deste EP na hora de colocar aquele som viajante pra dançar no “sabadão” de noite! Com certeza virão mais faixas do mesmo naipe por aí nesse disco de estréia.
A melhor coisa que tem é saber se reinventar com pouco, fazendo o que sabe fazer, é isso que deve-se esperar dessa nova investida de Trent Reznor, e (graças a Deus) mais nada.















julho 2, 2010 às 15:50
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