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Feira Música Brasil 2010- Os desafios de uma música em movimento | Rock 'n' Beats

Feira Música Brasil 2010- Os desafios de uma música em movimento

Postado por Ana Clara Matta. Posted in Nacionais, Rock 'n' Beats

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Publicado em 14 dezembro, 2010 - Nenhum Comentário

Foto: Divulgação

Qual foi a última música que você escutou? Onde você estava ouvindo? No seu rádio? No seu sistema de som? No seu PC? No seu Mp3 Player? No celular?

Como você escolheu essa música? Ela chegou até você através da sugestão de um amigo? Através de um programa de TV? Ou você a encontrou em um Blog, em uma página de MySpace, no seu Last.fm?

Você tem essa música em algum formato? E aí, é em um CD, DVD ou vinil, tradicional, comprado, com uma embalagem e um encarte? Ou é digital? E se for digital, você comprou a faixa avulsa ou o álbum? Ah, você não comprou? Download grátis disponibilizado pela banda? Ah, também não? Entendi.

Aposto que 50% das suas respostas não seriam possíveis na época dos seus pais, ou em um passado ainda mais recente. A maneira de consumir música mudou absurdamente nos últimos anos. E para alcançar você, consumidor de música, todos os setores da cadeia de produção cultural estão correndo, para todos os lados e com a maior velocidade possível. Acontecem tropeços. Afinal, a corrida não é fácil para uma indústria que estava acostumada a caminhar.

Entre os dia 8 e 12 de dezembro, pessoas de todos os setores da indústria musical estavam reunidas na Feira Música Brasil 2010, em Belo Horizonte, para discutir os próximos movimentos nesse jogo de xadrez. Eu estava lá e cheguei no meu primeiro dia de feira com uma visão absurdamente romântica e irreal do mundo da música. Essa visão não durou muito tempo, e foi substituida por uma bem mais ampla, na qual as fronteiras entre a arte e os negócios somem completamente. Decepção? Não. Fascínio por saber todo o processo que leva um acorde de guitarra para o fio de meu fone de ouvido. Se a parte musical deixou a desejar, com problemas no som e na organização dos shows, os painéis e discussões não falharam e mostraram um panorama completo dos desafios e evoluções, presente e futuro, panorama resumido aqui no Rock ‘n’ Beats.

O Artista

Paula Quijano, Paul Dalen e Andre Bourgeois em Painel na FMB 2010 // Foto: Divulgação

Você, armado com sua criatividade e o instrumento musical de sua escolha, acabou de compôr uma canção. Essa criação pode ser a essência de tudo o que se relaciona com o mundo da música, mas é apenas o início de tudo. A transformação do artista em microempresa foi discutida em um interessante painel, que contou com a presença dos agentes Paul Dalen (ex-Bowie, Byrne, Air), Paula Quijano (Gang of Four, Guillemots) e Andre Bourgeois (Céu, Curumin), o diretor do departamento internacional da Discograph, Bruno Le Bolloc’h, o artista e fundador do selo Diginóis Lucas Santtana e o autor de Música LTDA, Leo Salazar. Se você tem uma banda, fique atento. No mesmo instante que você finalizou essa música, várias outras bandas e artistas solo estão passando pelo mesmo processo. Assim como em todos os ramos da indústria, a competição cria duas necessidades: Organização e Inovação.

De acordo com Leo Salazar, o primeiro passo para se organizar é criar um CNPJ. Dessa maneira, você, artista que consegue se ver como empresa produtora de conteúdo, será visto com empresa também pelo mundo. Você pode conseguir empréstimos, você pode se apresentar e se representar, você pode exportar seu conteúdo com maior facilidade.

Mas mesmo com esse pensamento matemático, você é um artista. As ciências exatas param por aqui quando você tem que criar uma marca. É. Quase “Branding”. De acordo com Paul Dalen, que hoje comanda uma agência alternativa chamada Reverse Thread, seus principais critérios na hora de escolher um novo representado são: Compatibilidade (de gênio, visão e som) e originalidade. Dalen disse que só se interessa por um artista que tem uma imagem própria tão forte que, ao escutar uma de suas músicas, é impossível não reconhecer.

Na platéia, um jovem músico perguntou sobre o funcionamento dessa mentalidade empresarial em bandas, nas quais cada integrante possui sua visão própria. Paula Quijano, baseada em sua experiência com o Gang of Four, disse que bandas exigem paciência e pulso firme de seus empresários, mas também ressaltou que a tendência geral é: Um dos membros, o mais racional, assume a responsabilidade de organizar, como um CEO, essa empresa.

Lucas Santtana adicionou muita experiência prática ao debate, como artista que já esteve em vários fronts de batalha da cena independente. Lucas revelou detalhes interessantes de sua carreira, como a superioridade dos resultados que obteve distribuindo sem a ajuda de uma empresa seu segundo álbum, e até a invenção de um agente chamado João, que tinha e-mail próprio e ganhava uma versão alterada da voz de Lucas em conversas de telefone.

Essa necessidade de inciativa do artista também se fez presente em um exemplo inusitado: Leo Salazar citou Chimbinha como um herói independente. O guitarrista paraense fez de sua música um sucesso popular sem a ajuda de ninguém, e principalmente: Sem a vergonha de procurar o público, se definir como artista que quer ganhar dinheiro fazendo o que gosta e vendendo o seu peixe, com cds em supermercados e merchandising em shows. Não existe mais aquele esquema de criar seu reinado no underground e esperar que alguém te descubra.

O público, as novas mídias e as gravadoras

Painel de Música Digital e Novos Mercados na FMB 2010 // Foto: Divulgação

Se você está lendo esse texto, você é parte de uma minoria. Uma minoria que vai atrás de informação e música em blogs, em redes sociais, em todos os lugares possíveis e imagináveis. A confusão que você está causando na indústria musical é gritante. Era perceptível, durante a Feira música Brasil, o surgimento de um dilema: Estamos correndo atrás de qual público? Os antenados, conectados através de seus pcs e celulares e criadores de tendência, ou o grande público?

“Música digital e novos mercados” pode ter sido o título de um painel que contou com a presença de Kent Brewster (Consultor, Ex-Netflix), Reinaldo Magalhães (Diretor da Takenet, empresa de mídia e conteúdo para celular), Bruno Vieira (Selo Oi Música) e Maurício Bussab (Tratore – ABMI), mas seu tema compreendeu toda a indústria musical. O eixo principal da discussão pode ser resumido em uma frase: A preguiça é característica inerente ao público em geral.

Essa “preguiça” define as características do mercado de diversas maneiras. Por exemplo, Bruno Vieira revelou, a partir da sua experiência com a proximidade entre o selo Oi Música e a rádio Oi Fm, que as principais mídias formadoras de opinião no mundo da música ainda passam longe da internet: São as emissoras de rádio e de TV. São esses meios nada imparciais que decidem o que será sucesso e o que não será. Afinal, em um país com acesso ainda restrito à banda larga, são essas mídias que atingem os ouvidos de grande parte do público. E em uma loja virtual são os MP3 dos artistas que tocam em rádios e aparecem em programas de Tv, de auditório, trilhas de novela, que vendem de verdade. E isso cria um terrível ciclo, pois o dinheiro será reinvestido nesses potes de ouro garantidos.

As lojas virtuais de MP3, especialmente as vinculadas às operadoras de telefonia móvel, cobram valores altíssimos por faixa, pois esbarram em uma cadeia gigante de mínimos autorais, empresas especializadas em conversão de formatos, entre outros. E com um preço tão alto, apenas compradores “impulsivos” se arriscam nesse mercado, como dito por Reinaldo Magalhães. Todas essas taxas e impostos ainda criam um gesso que reduz a ousadia das empresas. A pressão é tão grande para buscar aquilo que é radiofônico e lucrativo, que é difícil apostar em algo menos comercial.

Mas de acordo com Maurício Bussab, o mercado de venda de música através da internet também pode ser lucrativo. Bussab usou como exemplo sua experiência no Terra Sonora. É aí que entra novamente a preguiça do público. Como resumido por Kent Brewster, “O fácil ganha do gratuito” no mercado de conteúdo na web. E a tendência natural seria disponiblizar músicas na internet de uma maneira simples, contínua e que parecesse aos olhos menos atentos quase gratuita. Essa maneira seria o Streaming, apontado como o futuro da música digital. Mas Brewster, em seu discurso pró-streaming, ignorou um detalhe importante, a diferença entre a qualidade e expansão da internet nos grandes pólos econômicos e aqui, no Brasil.

Um recado também foi dado aos artistas que querem utilizar as novas mídias e mercados: Além da simplicidade dos sites, essencial para o acesso nos smartphones, o artista tem que saber promover seu contéudo. Estar onde seu fã pode estar é essencial para ampliar seu sucesso para os fãs menos ávidos e curiosos.

O país, a política e a cena

A complexidade do universo musical não passa apenas pelos números e pelo mercado. A política também exerce seu papel em toda a produção cultural do país. A Feira Música Brasil é um ótimo exemplo dessa influência, um evento que chega ao seu 3º ano, é produzido pela Fundação Nacional de Artes, Ministério da Cultura e estatais como a Petrobrás e o BNDES e revela uma preocupação governamental direcionada aos rumos da música independente e um pensamento que ultrapassa a música regional e visa o mercado global.

Mas a participação governamental ainda tem muito espaço para melhorias, e, para corrigir falhas e melhorar o sistema, uma ponte para a união entre diversos setores da indústria e o governo foi criada: A Rede Música Brasil. A Rede Música Brasil começou como uma união entre inúmeras associações e entidades, e se anteriormente possuia participação governamental intensa (a Funarte convocava as reuniões) agora começa a dar seus primeiros passos como organização independente.

O objetivo das reuniões da Rede é criar metas para a melhoria de todos os setores do mundo da música, da formação de platéia com a educação musical nas escolas a mudanças nas leis de direito autoral, e essas metas são resumidas nas cartas de Recife, idealizada na 2ª FMB, e Belo Horizonte, divulgada em um painel extremamente informativo que reuniu representantes de quase todos os órgãos envolvidos.

Muitas das metas presentes na carta de Belo Horizonte, infelizmente, são herdeiras diretas das metas que lotavam a carta de Recife. O que isso significa? Que em um ano, pouco mudou. Mas hábitos antigos não morrem fácil e não podemos esperar soluções imediatas, ainda mais quando interesses de tantas pessoas e empresas estão envolvidos.

É confortante saber que as reuniões da Rede Música Brasil continuarão, afinal, uma feira anual, por mais completa e abrangente que esta seja, não consegue acompanhar um consumidor que muda as regras do jogo de maneira quase instantânea, a cada clique e download.

Sobre Ana Clara Matta

Uma soma de todas as músicas que já escutei e todos os filmes aos quais assisti. / @_ana_c

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