
Por Ana Clara Matta
Nota: 8
Vivemos na era da música pop descartável. Cada vez mais, artistas seguem trajetórias meteóricas, no sentido mais literal da palavra: surgem rapidamente, brilham e distraem o público com pirotecnia e somem no horizonte sem deixar traços. “Artistas” com um álbum lançado e um hit produzido mobilizam 100 mil pessoas em pleno Rock in Rio, e quase 10 entre 10 sucessos da Billboard tecem clichês sobre diversão, festas, relacionamentos fúteis e artifícios massificados. Friday, de Rebecca Black, deixa de ser apenas uma febre de youtube e ganha toques proféticos, quase o retrato de uma geração, de uma música que encontrou uma fórmula mágica de sucesso comercial.
Feist poderia ter caído nas engrenagens sedutoras da música meramente comercial e da superexposição. As contagiantes 1234 e Mushaboom foram disseminadas por propagandas de TV extremamente populares e traziam coreografias e energia, e dependendo do direcionamento, seu quarto álbum Metals poderia ser seu passaporte definitivo para o mainstream. Mas isso não acontece em Metals. Feist não é um produto, é uma artista. Com talento ímpar, voz impecável, elegância e uma coleção de referências e influências que vão do pop adulto dos anos 80 aos standards do jazz clássico, Feist transforma Metals em mais um álbum equilibrado e inteligente, e acima de qualquer coisa, nada descartável.

Metals não é óbvio, mas não deixa de ser radiofônico. Leslie Feist segue em seu novo trabalho um caminho similar ao trilhado por dois outros destaques do pop feminino em 2011, Adele e Laura Marling, que escolheram uma abordagem mais adulta, em letra e melodia, para suas obras mais recentes. É exatamente o contraste de Metals, 21 e A Creature I Don’t Know com a atual cena musical que os transforma em obras estranhamente anacrônicas. Discos nos quais a produção não disfarça falhas e forma um “photoshop musical”, mas realça detalhes, destaca sutilezas. Com profundidade. E com muita classe.
O novo álbum de Feist já começa com um belo par de opostos. The Bad in Each Other traz a simplicidade de um tema como relacionamentos amorosos e Graveyard é densa, assustadora e obscura. Uma combinação sutilmente roqueira, com poderosos refrões. Mas é em Caught a Long Wind que Metals realmente revela sua identidade, sonora e temática.
Caught a long wind não só é a melhor faixa de Metals como é seu momento mais importante. É ela que inicia uma série de referências ao vôo dos pássaros, referências que retornam em outros momentos incríveis do álbum, Bittersweet Melodies, Get it wrong, Get it Right e Confort Me. Caught a long wind, ou “ser carregada por um longo vento”, parece descrever Metals perfeitamente. Um álbum que plana, áereo, leve e aparentemente sem esforços, o trabalho menos energético e ansioso de Feist.
Mas nem tudo é calmaria nesse vôo, e o primeiro grande mergulho de Metals vem na forma de A Commotion, que traz as raízes Art-Rock de Feist para os holofotes. Após essa que é a faixa menos acessível do álbum, a polaridade se inverte e chegam dois exercícios na arte do “easy-listening”, The Circle Married The Line e Bittersweet Melodies. Anti-pioneer é lenta e exigente (mas recompensadora), The Undiscovered First retoma a agressividade de A Commotion, e até o folk do Iron & Wine encontra seu lugar em Cicadas & Gulls, mais um exemplo de um disco em sintonia com a natureza, como um álbum gravado no Big Sur californiano deve ser.
Leslie Feist descreveu perfeitamente sua própria obra com uma analogia inteligente: “Metals (Metais) podem ser encontrados brutos e crus, derretidos no centro da Terra, mas também podem ser altamente refinados e transformados em pequenas jóias”. Se os ainda inigualáveis The Reminder e Let it Die apresentavam uma maior variedade, como uma corrente com elos de diferentes metais, Metals é uma liga, bem forjada, bem polida e afiada por Feist.















outubro 4, 2011 às 20:14
Feist não é um diamante, não é um brilho chamativo. É um metal polido e muito mais elegante. Ela vence qualquer Cullinan por ser simples no sentido de não ser artificial. Ana, como sempre, postagem maravilhosa. digna do álbum.
outubro 5, 2011 às 07:47
[...] Do art-rock de A Commotion, ao pop adulto de How come you never go there e Caught a long wind, passando pelo folk de Cicadas and Gulls, Metals corre macio. Confira a resenha completa de Metals aqui. [...]
outubro 10, 2011 às 13:41
Na minha opinião, Caught a long wind tem mais ou menos a mesma temática de The Circle Married The Line.
Caught a long wind na música significa dar uma boa respirada, de um ar fresco, ou seja, uma situação de paz e tranquilidade, que é tratada em The Circle também.
dezembro 2, 2011 às 10:01
She is fucking amazing!