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Entrevista: Kisses, dos trópicos artificiais da California para os palcos brasileiros | Rock 'n' Beats

Entrevista: Kisses, dos trópicos artificiais da California para os palcos brasileiros

Postado por Ana Clara Matta. Posted in Entrevistas, Internacional

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Publicado em 21 novembro, 2011 - Nenhum Comentário

Foi em um dia nublado e relativamente frio que a dupla Kisses fez a sua estreia nos palcos de Belo Horizonte, mas do interior do Grande Teatro, era difícil não imaginar que suas portas ocultavam uma tarde de verão em Los Angeles, Califórnia. A dupla, que chegou ao festival Eletronika com um excelente álbum de estreia na bagagem, The Heart of the Nightlife, colocou o público para dançar em cima do lendário palco mineiro.

Jesse Kivel (também da banda Princeton, que lançará novo álbum no primeiro semestre de 2012) e Zinzi Edmundson conversaram com o Rock ‘n’ Beats sobre os próximos passos, o futuro da banda, e detalhes curiosos sobre a produção e a inspiração de The Heart of the Nightlife. Depois dessa entrevista, você não precisa conhecer Palm Springs ou Bermuda para entender cada nuance do som leve, relaxante e divertido do Kisses. Confira!

Com um single chamado Bermuda e um clima de verão em todo o seu álbum (inclusive na arte da capa), como vocês descreveriam a influência da cultura tropical no seu som? E como é apresentar essas músicas em um país tropical?

Jesse Kivel: A atmosfera tropical da nossa banda não está fundamentada em outros países, como o Brasil, onde existem florestas tropicais de verdade, e sim em um trópico artificial, como Palm Springs na Califórnia. Você já esteve lá? Palm Springs fica a uma hora de distância de Los Angeles, é um completo deserto, não tem nada de tropical lá, mas eles despejam toneladas de água para que pareça tropical. É falso, é como uma miragem, um oásis no deserto. Nosso som é influenciado por isso, pois sou de Los Angeles. Na capa do nosso álbum está um velho hotel dos anos 60 em Palm Springs, e tem aquela arquitetura bem moderna mas tem todas aquelas palmeiras e plantas tropicais, todas importadas, elas não pertencem àquele lugar, e eu acho que aquele contraste era algo que nos interessava como banda.

Tudo OK, aqui em Belo Horizonte nós também não temos palmeiras, mar, nada tropical…

Jesse: Mas no Rio sim! Além disso, a capa do single Bermuda é o triângulo das Bermudas, nós só queríamos símbolos fortes para cada single, para o álbum em si nós só queríamos a estética da piscina e do hotel, mas para cada single buscamos uma só imagem que representasse a faixa inteira, então, para Bermuda, pensamos que seria interessante utilizar o triângulo, tem algo de interessante e exótico… a região de Bermuda tem algo de muito exótico e algo de nada exótico. É muito americanizada…

Zinzi Edmundson: Não, não é americanizada, é britânica.

Jesse: Mas é um lugar americanizado de turismo, pessoas das Carolinas vão para lá…

Zinzi: É quase como Palm Springs, só que ao contrário. Em Palm Springs eles importam o tropical, e em Bermuda eles importam a aridez britânica, com todos aqueles homens de bermudas e camisas pólo, bebendo Gim Tônica. Óbvio que tem um elemento imperial nisso, mas tudo parece muito manufaturado.

Vocês visitaram o país após a composição da faixa?

Zinzi: Você já esteve nas Bermudas, Jesse?
Jesse: Não
Zinzi: Eu estive, mas bem antes da faixa.

Há menos de um mês vocês lançaram um ótimo cover, que vocês até apresentaram no show, de Johnny and Mary, originalmente gravada por Robert Palmer. Como essa ideia surgiu? Nós podemos esperar esse tipo de influência no novo álbum?

Zinzi: Isso foi bem aleatório, na verdade. Eu estava olhando em em um blog de moda, e você já viu algum dos clipes mais conhecidos do Robert Palmer, como Simply irresistible, Addicted to Love? Tem sempre aquelas garotas do Robert Palmer, com aquela maquiagem escura clássica dos anos 80. Eu estava vendo um vídeo nesse blog que tinha o maquiador que fez todos aqueles trabalhos e ele estava tentando ensinar como obter aquele “visual Robert Palmer” e por algum motivo Jesse estava comigo e nós ficamos fascinados por aquelas garotas, que nos vídeos fingem que tocam guitarras. Mas aí acabamos por explorar sua música e descobrimos que Addicted to Love é, de longe, sua pior música. Tem músicas fantásticas ali.

Jesse: Sabe quando você entra no YouTube, um vídeo acaba e o site te mostra outros vídeos? Nós estávamos vendo esse vídeo com o maquiador e quando o vídeo acabou, o YouTube mostrou diversos outros vídeos do Robert Palmer. Um dos primeiros era Johnny and Mary, Zinzi colocou o clipe e eu instantaneamente amei a música, achei tão estranha, cool e sutil, e Robert Palmer para mim era exatamente o oposto disso nos anos 80, chamativo, alto, gritando nos refrões, e essa era tão quieta e sutil, muito bonita, e ficou grudada em nossas cabeças. Nós sempre discutimos a ideia de fazer um cover, todo o tempo, e eu sempre falo “Isso daria um ótimo cover, nós devíamos gravar”…

Zinzi: E nós nunca concordamos e por algum motivo concordamos nessa.

Jesse: Depois dessa canção, a ideia ficou conosco, e essa não é uma faixa que foi gravada por muitos artistas, não está gasta, e nós poderíamos fazer algo legal, pois a BPM da faixa é 154, uma canção de rock, mas nós fazemos Dance Music, com 120 ou 130, então eu pensei que poderíamos desacelerar a música e a transformar em uma faixa ao nosso estilo, mantendo o sentimento da letra.

Jesse, qual é a maior diferença da sua abordagem criativa nas bandas Kisses e Princeton?

Jesse: A diferença principal é, originalmente, o próprio estilo musical. Com o Princeton era mais folk, twee, e então eu quis enveredar pela Dance Music. Porém, recentemente, no novo álbum da Princeton, as novas músicas já carregam elementos dance. Para mim, a grande diferença agora é que, na Princeton, como uma banda, todos se reúnem, trabalham em conjunto nas partes, e o Kisses é um projeto no qual eu crio a estrutura e a visão da música. Então é menos colaborativo que o Princeton, que são quatro caras que trabalham juntos, e dizem “Ei, você trabalha no baixo, você, na bateria”, é uma banda mais tradicional quando está trabalhando em novas músicas.

O título do seu álbum de estreia, The Heart of the nightlife, parece mais do que um título, uma declaração. Essa é uma estética que vocês buscam enquanto compõem? As faixas são pensadas especificamente para o ambiente noturno?

Jesse: Eu acho que o título na verdade é irônico.
Zinzi: Tem um duplo sentido.
Jesse: O primeiro sentido, na superfície, é que esse álbum não é o coração da vida noturna de modo algum, pois são aquelas canções, o disco que você escuta às 4 da manhã, o barulho da boate ainda está zumbindo em seu ouvido e você está cansado e quer um álbum quieto. Então, para mim, é o oposto do coração.
Zinzi: De certa maneira, não é o que você ouviria no coração da noite, no meio dela. Algumas faixas são muito boas para dançar, mas nenhuma é verdadeiramente “club banger”, para dançar intensamente, após algumas caipirinhas. Mas é sim o coração da vida noturna no sentido emocional, esse é o sentido mais preciso.
Jesse: Como você se sente quando está dançando com alguém que você ama ou tentando conhecer alguém, esses sentimentos da vida noturna, não uma Dance Music para dançar a noite inteira. Além disso, o título partiu de um álbum de Tom Waits, acho que se chama The Heart of Saturday Night, e esse álbum, que meu irmão havia comprado, me fez pensar: esse é um título cool. Aí eu arquivei essa informação, e quando estava trabalhando em um álbum de Dance Music, achei que a vida noturna integrava bem a esse conceito.

Como vocês viram, em Belo Horizonte, vocês se apresentaram em um local que constantemente recebe artistas clássicos, orquestras e shows acústicos, e que exige que sua plateia fique sentada e relativamente quieta. Vocês estavam nervosos sobre como seria o resultado?

Jesse: Nós estávamos nervosos porque o local era tão grande. Nós não nos apresentamos normalmente em locais desse porte, mas eu, pessoalmente, estava muito empolgado, pois meus shows favoritos sempre foram em teatros, como os de Antony and the Johnsons, Sufjan Stevens
Zinzi: Dirty projectors
Jesse: São locais belíssimos, e são meus shows favoritos. Eu estou cansado de ir a um clube e ver uma banda se apresentando com péssima qualidade de som, por isso, mesmo tocando Dance Music foi empolgante ser ouvido apropriadamente e tocar para uma plateia tão quieta e educada.
Zinzi: Também acho que toda vez que nos apresentamos existe um elemento de “qualquer coisa pode acontecer”, e você não sabe o que irá acontecer, então simplesmente a ideia de se apresentar em um local diferente dos que nos apresentamos normalmente…é assim – será que as pessoas estarão sentadas quando nós entrarmos? será que elas vão se levantar e dançar? – isso adiciona um elemento extra de -nossa, espero que eles curtam o show! – então eu fico feliz que realmente deu tudo certo.

O slogan do festival Eletronika é “Festival de novas tendências”. Para vocês quais são as novas tendências na música?

Jesse: Para mim a nova tendência, enquanto nós envelhecemos como músicos, é fazer a sua própria tendência. Isso pode parecer bobo, mas eu sinto que você começa como músico e faz o seu melhor. Aí você se torna fã de um artista e tenta imitá-lo. Depois, você completa o ciclo e desenvolve sua própria voz, então para mim a nova tendência é a sua própria, e nós não podemos contá-la, pois ela estará no nosso próximo disco. Nós queremos fazer algo diferente, se nós vemos uma nova tendência, nós já não a queremos mais. É assim: ‘Ah, muita gente está usando a batida do 808′ mesmo se eu gostar, nós tentamos algo diferente porque queremos ir além do que está “em alta” agora. Queremos produzir algo que as pessoas possam escutar por muito tempo. Acho que The Heart of The Nightlife é um ótimo disco e estamos muito orgulhosos dele, mas acho que é, de certa maneira, uma catarse de toda a música que eu amo, e acho que estamos evoluindo para produzir algo mais pessoal e único para nós e fundamentado em algo que não seja só “do momento”.

Zinzi: Acho que no nosso novo disco, que não está nem perto da conclusão, a direção a ser seguida não é a mesma de grande parte da Dance Music. A nova tendência é se arriscar, sempre buscar o novo, tentar descobrir o que está acontecendo no momento, o que você curte, tirar inspiração do maior número possível de lugares.

Agora eu fiquei curiosa: quais foram os artistas que causaram essa catarse?

Zinzi: Ah, do primeiro disco?
Jesse: Acho que usamos a música Disco, Giorgio Moroder, Cerrone, Arthur Russell, esses são artistas que estão na base desse estilo musical, mas em termos de artistas contemporâneos, The Whitest Boy Alive
Zinzi:Air France
Jesse: The Tough Alliance, música sueca…
Zinzi:CEO
Jesse: Studio, The Embassy, muitas bandas da Suécia, eu sempre amei Kings of Convenience, Whitest Boy Alive
Zinzi:…o projeto solo de Erlend Oye
Jesse: Então esses são os artistas contemporâneos que eu adoro ouvir e que me ajudaram a encontrar minha voz.

Essas influências estão mudando em direção ao segundo álbum?

Jesse: Eu ainda amo essas bandas, mas já não sou tão influenciado por elas, eu “virei a esquina” e encontrei meu próprio estilo como compositor. E nós estamos tentando produzi-lo de maneira diferente. A produção está definitivamente mais sombria nesse próximo álbum, ao estilo do som do meio e fim dos anos 80, do gênero Freestyle, popular em L.A. e nos EUA, com palmas “gated”. Está diferente.

Sobre Ana Clara Matta

Uma soma de todas as músicas que já escutei e todos os filmes aos quais assisti. / @_ana_c

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