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Entrevista: Qinho | Rock 'n' Beats

Entrevista: Qinho

Postado por Regina Trindade. Posted in Destaque, Entrevistas, Nacionais

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Publicado em 21 junho, 2012 - Nenhum Comentário

Ele é bem mais que o “novo queridinho da MPB”. Após lançar seu segundo disco solo, Marcos Coutinho, o Qinho, deslancha no cenário musical brasileiro com um álbum consistente, de fácil destaque dentro das produções nacionais da última década.

Cantor, guitarrista, compositor, Qinho está estrada desde 2004, quando surgiu com a banda Vulgo Qinho e os Caras. Em 2009, o carioca lançou Canduras, seu primeiro disco solo, delicado trabalho que flutua entre a MPB, o violão e as canções de amor. A partir daí, não sossegou mais. Colaborou no trio Irmãos Brutos, que culminou com o lançamento de um EP em 2010. Apaixonado pela black music, idealizou e colocou em prática o projeto BléQINHO, uma releitura de clássicos do black brasileiro e internacional com participações especiais.

O Tempo Soa, lançado em janeiro deste ano, pode ser considerado seu grande debut. Com participações de peso e nomes como Martnália, Elba Ramalho, Amora Pêra e Botika, o segundo disco solo de Qinho tem uma aura dançante, mais rebuscado e amadurecido que seu álbum de lançamento. Acompanhado por ótimos músicos – Thomas Harres (bateria), Pedro Dantas (baixo), Ricardo Rito (teclado e sanfona), Fábio Lima (guitarra) e Leandro Joaquim (trompete) – Qinho encontrou espaço para ficar mais à vontade e usar a voz como seu principal instrumento.

Na última sexta-feira (15), Qinho levou para Vitória (ES) o show da turnê de O Tempo Soa. De sorriso fácil, o rapaz topou conversar com o Rock ‘n’ Beats e trocar umas palavras sobre o novo disco e os projetos futuros de sua carreira.

 

O que você produziu durante o hiato entre o Canduras de O Tempo Soa?

Qinho – Essa época foi chave para mim porque depois de sair da banda eu tive que procurar novos parceiros musicais pra fazer um trabalho novo. Durante esses dois anos eu pesquisei muito, fui a muitos shows no Rio de Janeiro, toquei com muitas formações diferentes, músicos diferentes. Fiz um projeto voltado para a Black Music, o BléQINHO, onde eu tocava versões de clássicos da Black Music brasileira e internacional, com convidados super bacanas, como Luiz Melodia, Jards Macalé, Martnália, Fernanda Abreu.

Esse período foi super importante para conseguir chegar numa sonoridade que eu estava buscando para O Tempo Soa. Ao longo desse processo experimental eu fui aos poucos encontrando os músicos que eu procurava, muitos deles são da Abayomy Afrobeat Orquestra, que é uma banda nova no Rio de Janeiro que se dedica ao Afrobeat, uma onda que está alcançando o mundo inteiro. Tem o Antibalas, em São Paulo tem o Bixiga 70. Essa galera compreendeu a minha sonoridade muito facilmente, compreendeu onde eu queria chegar com o Afrobeat nesse novo trabalho.

O Canduras é um disco mais doce, de composições voltadas para o amor. O Tempo Soa é mais ágil, mais dançante.  Existe um “grande tema” em O Tempo Soa?

Qinho – O tema central é o Tempo e as letras são bem mais abstratas que nos outros discos. No Vulgo Qinho e os Caras o tema era voltado mais para uma crítica social, para a cidade, as mazelas, a tensão de estar na rua, de se comunicar com os estranhos, com os outros. Existia um temor muito grande no Rio de Janeiro nessa época e a gente tocava muito nesse ponto nas composições. O Canduras foi algo mais sobre o amor mesmo, os encontros, a paixão, a dor. O Tempo Soa eu acho que é mais abstrato, as letras são muito mais abertas. É uma reflexão sobre o tempo, sobre como o tempo atua, molda e transforma todo mundo, como interagimos com ele nessa dança que às vezes machuca, às vezes acaricia. Acho que o disco ficou por aí, tentando captar algo que é meio “incapturável”.

Qual foi a evolução musical mais importante que você percebeu entre o Canduras e O Tempo Soa?

Qinho - Acho que a evolução musical foi basicamente a de arregimentação da banda. O Canduras é um disco mais minimalista, foi mais baseado em cima da minha voz e do meu violão e com poucos instrumentos floreando os arranjos que eu fiz. Para O Tempo Soa eu tive que fazer esse trabalho de buscar um grupo para executar aquilo que eu estava imaginando. Acho que esse foi o grande esforço que eu fiz pra chegar nesse disco. Porque pra mim não é nem um pouco simples conseguir traduzir as minhas ideias pra fora, sabe? Tirar de dentro do meu coração, do meu estômago, do meu pulmão, da minha cabeça uma ideia de uma música e essa ideia ser bem retratada a ponto de eu achar que é exatamente aquilo que eu estava sentindo dentro de mim. Foi um empenho muito grande para encontrar esses aliados que me ajudam e compreendem o que eu estou sentindo musicalmente e conseguem retratar isso tocando.

Quais foram as maiores influências na hora de escrever a músicas, gravar, produzir o disco?

Qinho – A composição foi influenciada pelos grandes compositores brasileiros dos quais eu sou muito fã: Tom Jobim, Noel Rosa, Caetano Veloso, Gilberto Gil, e claro, Jorge Ben. A sonoridade eu quis trazer mais pro lado da Black Music, na época eu estava ouvindo muito Tim Maia, muito Steve Wonder. Apesar disso o disco fica nesse meio caminho… Não é um disco do gênero Black Music. Mas também não é um disco de MPB muito pura. O Tempo Soa fica nesse flerte, nessa mistura, nessa história de “estou com um pé em cada lugar”. Eu gosto dessa tensão.

Vulgo Qinho e os Caras

Como você lida com a questão da internet, do disco “vazar” na internet, das pessoas fazerem o download ao invés de comprarem o disco?

Qinho – Pra mim isso é natural, acho inclusive que é favorável para o artista. Eu, por ser jovem e por ter vivido a época do Kazaa, do Napster e de todas as outras plataformas de compartilhamento nas quais eu era fissurado e baixava milhões e milhões de músicas, acho maravilhoso. Antigamente era muito difícil você ter a música. Eu me lembro de ouvir o pessoal mais velho falar que o vinil era muito caro, que você não comprava vinil, que disco era quase um artigo de luxo. Hoje você pode ter todos os discos à sua disponibilidade. Isso é incrível. Comercialmente, é claro que é delicado, eu quero que as pessoas comprem meu disco, eu quero que elas consumam, quero que isso continue sendo um comércio. Acredito que a livre circulação do conteúdo pela internet melhora as vendas. Uma coisa ajuda a outra. Eu mesmo fiz questão de postar todas as músicas do disco no YouTube, porque eu acho que é importante ter o disco disponível online para que as pessoas possam ouvir.

Por que você não tem mais tocado guitarra no palco na turnê de O Tempo Soa?

Qinho – Eu parei de tocar guitarra. Lembrei de quando estava falando sobre o Canduras, que foi basicamente voz e violão. Em O Tempo Soa eu gravei guitarras, mas atualmente nos shows eu já não toco mais. Acho que a banda consegue executar muito bem sem mim, são grandes instrumentistas. Eu fui sentindo a necessidade de parar de tocar e me concentrar só no vocal.

Como foi a escolha dos artistas que fizeram participação em O Tempo Soa?

Qinho – O Botika (Coração Gigante) e a Amora Pêra (Irmã Forte) são meus queridos, amicíssimos, meus irmãos. Estamos o tempo inteiro juntos com projetos e trabalhos, já existia antes da gravação uma troca muito grande, tanto afetiva quanto profissional, artística. Compomos juntos, pensamos juntos, discutimos muito sobre o nosso trabalho, sobre a nossa condição de artistas. São pessoas que estão sempre comigo me alimentando, sabe? Então foi natural que eles estivessem juntos comigo nesse disco.

A minha amizade com a Martnália começou no BléQINHO. Demos muito certo dentro do palco, nos identificamos muito. O astral da Martnália é muito contagiante, ela é incrível. Eu colaborei no disco da irmã mais nova dela, a Maíra Freitas, que é pianista clássica, mas ao mesmo tempo tem toda uma tradição do samba vinda de casa. Dividimos o vocal de As Voltas, uma música minha. Na hora de gravar O Tempo Soa eu já estava planejando chamar a Martnália para participar em alguma faixa. Acabamos gravando uma música que entrou meio de última hora, Segredinho, que tem sido apontada como a grande música radiofônica do disco.

A faixa Morena é uma regravação do Gonzaguinha e tem a participação da Elba Ramalho…

Qinho – A Elba que foi uma grande surpresa do disco. Morena é uma música do Gonzaguinha que eu descobri no disco O Canto Jovem de Luiz Gonzaga, de 1971 e que é super raro. Nesse disco o Gonzagão gravou grandes compositores jovens na época, Caetano, Gil, Edu Lobo. Tem até uma música do Tom Jobim. Morena, que é do Gonzaguinha, só tem registro nesse álbum e ninguém nunca mais gravou. Eu descobri essa música, me apaixonei, fiz uma versão, comecei a tocar nos meus shows, e fui percebendo que ninguém conhecia a música, então me senti com a responsabilidade de trazê-la de volta, tirá-la do esquecimento. Queria que tivesse alguém cantando essa música comigo e fiquei quebrando a cabeça por um tempo até que lembrei que a Elba seria a pessoa ideal, pela tradição nordestina, por ter feito projetos com o Gonzagão, e por ser contemporânea do Gonzaguinha. Fomos de peito aberto falar com ela depois de um show, explicamos a história, ela ficou interessada, ouviu a música e falou que topava a participação. Foi de uma generosidade tamanha a dela, de estar aberta a esse tipo de abordagem de uma molecada que chega e faz um convite para uma gravação. Esse coração aberto que ela teve, essa recepção positiva, foi surpreendente para uma pessoa do tamanho dela. Eu sempre faço questão de agradecer novamente à Elba Ramalho por isso.

Você se lançou com o Vulgo Qinho e os Caras, fez o projeto do BléQINHO, lançou o Canduras e  agora obteve um grande reconhecimento com O Tempo Soa. Qual a próxima barreira a ser quebrada na sua carreira?

Qinho – Que bacana falar sobre isso. Já tenho pensado muito no que vou fazer agora. Já acabou esse processo de lançamento, então já estou começando a vislumbrar. No Vulgo Qinho e os Caras eu tocava violão, e era uma coisa puxada para o samba-rock. O Canduras foi virando outra coisa, mais MPB, mais bossa-nova, ainda no violão. O Tempo Soa foi meu momento guitarrista. E agora finalmente eu estou abandonando os instrumentos e me dedicando a só cantar. E eu acho que isso vai ser uma grande novidade para mim. Estou muito ansioso para ter essa experiência de palco sem tocar o instrumento porque, como eu não sou um grande instrumentista, nunca estudei a fundo a prática e a teoria, eu me sentia com uma responsabilidade muito grande de executar bem as músicas. E eu ficava ali no palco com essa incumbência e isso me tirava um pouco da atenção do vocal, me tirava um pouco da atenção da minha interação com o público. Está sendo maravilhoso não precisar me preocupar com isso, me preocupar só em cantar, em conversar com as pessoas, em estar com elas ali naquele momento e ao mesmo tempo arregimentando a banda, fazendo esse meio de campo.

Meu desejo é manter a mesma banda no próximo trabalho, porque eu acho que estamos só começando a desenvolver uma linguagem juntos. Agora na estrada estamos começando a testar coisas novas. Queremos chegar num som ainda mais pesado. Gosto muito do hip hop, do rap, me interesso muito pelo funk carioca também, é algo que me instiga pra caramba. Eu quero flertar com esses estilos e ficar mais solto mesmo como cantor e como produtor, como arranjador, sem precisar ser um instrumentista. Esse é o grande diferencial que quero alcançar no futuro.

 

Qinho na Estação Porto, em Vitória - ES (Foto: Mariana Zamborlini)

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