“Eu acho muito brega essa relação artista-público”, afirma Cícero imitando uma expressão de cansaço. Um ano após disponibilizar Canções de Apartamento na internet e protagonizar um fenômeno de aceitação e difusão em blogs e perfis nas redes sociais, o músico tenta manter uma relação próxima a da amizade com os fãs e admiradores de seu trabalho.
Dessa forma acessível, o carioca esteve em São Paulo no último sábado, 14, para um show acústico no Cambridge Hotel. A apresentação, porém, não foi a única atração da noite. Seu novo videoclipe, produzido pelo Coletivo AM, para a canção Laiá Laiá, teve pré-estreia em um descolado baile de máscaras.
Logo depois da passagem de som, o Rock ‘n’ Beats bateu um papo com o músico. Simpático e direto, Cícero fez um balanço desse último ano agitado. Além de falar sobre sua relação com o crescente número de fãs, contou sobre o desejo de lançar um livro de poemas e sobre novas responsabilidades. Falou como tem recebido elegios de artistas como Marisa Monte e fez questão de esclarecer algumas informações sobre o próximo álbum. Ao final, revelou seu segredo para vencer a timidez no palco.
Rock ‘n’ Beats: Qual a expectativa para esse baile de pré-estreia do novo clipe?
Cícero: Estou animado. A ideia de fazer a pré-estreia do clipe de Laiá Laiá em um baile de máscaras foi do Coletivo AM. O vídeo foi gravado aqui e eu achei a ideia super válida. Eu gosto de tocar em São Paulo porque o público daqui é muito maneiro.
Esse e os próximos clipes têm seguido concepções suas ou você tem fechado parcerias?
Inicialmente eram concepções minhas, mas sempre tem gente legal, com ideia legal, fazendo coisas legais. Foi o caso desse coletivo que veio com a ideia de fazer o baile, o clipe e tudo o mais. Eles vieram com toda a produção, estrutura, execução e fizeram tudo. Eu achei maneiro pra caramba a só dei alguns palpites. Quando a ideia é boa, não importa de quem é.
Já se passou um ano desde o lançamento do “Canções de Apartamento” na internet. Qual o balanço que você faz desse período?
Cara, é muito doido. Eu botei o disco no Facebook de bobeira e a coisa andou de uma forma incrível. Fechei com gravadora e estou fazendo shows legais pelo Brasil todo. Foi tudo pela internet, mais diretamente pelos blogs. O Rock ‘n’ Beats, inclusive, foi um dos primeiros, senão o primeiro a dar uma nota, falar do disco. Agora que a grande mídia está começando a desconfiar que eu existo, um ano depois. Eu sou total fruto dessa nova geração dos blogs e dos pequenos formadores de opinião em seus perfis.
O “Canções de Apartamento” foi lançado recentemente em formato físico. Qual o peso desse fato na sua carreira hoje?
Eu não estou fazendo mais público por causa do disco. Eu estou basicamente atendendo a um pedido dos fãs. A galera ouvia pela internet e me pedia discos. Eu nem tinha muita ideia de lançar o disco físico, mas quando a galera começou a pedir eu fiz do meu bolso uma primeira tiragem. Mas a demanda era tão grande que começou a se fazer necessário que uma gravadora fizesse o disco chegar em outros estados. Pra mim a gravadora é mais uma satisfação que eu estou dando para o público, pra galera que quer ter o disco, quer ter o encarte, uma coisa física que dure.
Você já anunciou que tem planos de lançar um livro, o “Poemas de Apartamento”. Em que pé está esse projeto?
Cara, eu não tenho tido tempo. Na verdade eu tenho muita vontade de lançar um livro de poemas, há muito tempo. Seja “Poemas de Apartamento”, seja qualquer coisa. Eu tenho um monte de poemas que eu gosto de escrever. São coisas difíceis de musicar, que têm frases longas. Eu quero lançar isso, mas estou naquela fase de shows, gravando coisas. Talvez esse projeto fique para o ano que vem ou depois, não sei. Assim que eu tiver um tempinho eu vou lançar porque tenho muita vontade de mostrar essas coisas.
Falando em rotina agitada, também presente nas letras do álbum, como você tem lidado com essa questão ultimamente?
Eu continuo sendo o máximo ‘irresponsável’ que dá pra ser. Porque na verdade, quando aquilo que você fazia por paixão, como hobby, começa a virar uma carreira, começa a movimentar alguma grana e começa a envolver outras pessoas, você começa a ter que ser muito responsável. Você acaba virando um síndico de você mesmo. Tem que ficar se policiando o tempo todo para fazer as coisas certas. Eu tenho tentado manter uma certa irresponsabilidade nisso pra não perder a lei natural dos encontros, a coisa do contato, do acaso. Não entrar numas de que ‘agora eu sou um artista’. Eu sou a mesma coisa. Esse negócio de que ‘agora você é conhecido’, isso é a maior balela. Eu continuo indo na padaria do mesmo jeito, nada mudou. A única coisa que mudou é que agora eu tenho um pouco menos de tempo pra ser irresponsável. Então, tento separar esse tempo de irresponsabilidade, com tanta responsabilidade, como eu separo tempo para as minhas responsabilidades (risos).
Existe diferença na reação do público, dependendo da localização em que você se apresenta?
Existe sim. Parece que quanto mais para o interior eu vou, mais intensa é a relação que as pessoas têm com aquele momento. Rio e São Paulo são os lugares que eu tenho mais público quantitativamente, onde tem mais gente que me apóia, gente que gosta do meu trabalho. Mas como eu estou com mais frequência nesses lugares, a reação fica um pouco mais comedida. Quando eu vou para o interior, o público se entrega de uma forma muito maior, porque aquele momento parece mais efêmero do que que em outros lugares. As pessoas percebem que você pode não voltar lá e então fazem questão de mostrar que você é amado e que querem que você volte. O que eu tenho notado é que o público que tem me acompanhado é uma galera que não tem vergonha de mostrar carinho, de ‘soar brega’. Nego chega e abraça mesmo, chora, conversa mesmo. Então, pra mim é todo mundo amigo, porque eu posso falar qualquer coisa que a galera entende que estou sendo eu mesmo, não estou sendo polido ou comportado. Acho que essa é a melhor relação de fã que existe. Fã que te entende como um cara, simplesmente.
E parece que você também faz questão de prezar por esse tipo de contato com o público…
Eu acho muito brega essa relação artista-público. Você começa a criar uma aura em torno de você que não existe. Todo mundo é igual. Todo mundo pode gravar um disco igual ao meu. Todo mundo pode. É que as pessoas não se predispõem a isso porque não têm tempo. Nego trabalha, nego rala. Mas todo mundo escreve uns versinhos, arranha um violão. Eu só fui um cara que botou na internet. Eu não entro numas de muita pompa. Não é a minha onda.
Numa entrevista recente, a cantora Marisa Monte falou que gosta do seu trabalho, entre alguns outros nomes dessa nova geração. Como você recebeu o elogio?
Eu fico feliz com todos esses elogios. Pra mim a música é uma forma de identificar pessoas parecidas comigo, pra eu ter mais amigos. Eu faço a música e todo mundo que gosta do meu disco automaticamente tem uma intimidade comigo. Então, seja a Marisa Monte, seja uma garota que eu nunca vi na vida, seja o Marcelo Camelo ou um cara que eu não conheço, quando alguém elogia meu disco, eu tenho a impressão de que talvez haja ali mais um amigo em potencial, que eu posso sentar para trocar uma ideia, tomar uma cerveja e falar das coisas que eu tratei no disco. Isso é o que mais me interessa. O que mais gosto na rotina de shows é poder trocar ideia com a galera. O negócio de curtir o sucesso, pra mim, é meio sem graça. Então a Marisa Monte foi mais uma pessoa que, se um dia eu esbarrar no shopping, vou falar: ‘E aí! Que legal que você falou de mim. Vamos sentar ali e tomar um negócio’.
Recentemente, em um show no Rio, você apresentou uma novidade no palco. Já começou a trabalhar no segundo álbum?
Isso é uma coisa que eu queria falar. Eu vou mudando as músicas até a hora em que gravo. Aquela que eu apresentei com certeza vai mudar completamente. Porque eu sempre acho legal, uma semana depois já acho uma porcaria e faço outra coisa. Eu já estou trabalhando nas músicas do segundo álbum, mas vai demorar. Pelo menos até o final do ano eu continuarei trabalhando nelas. Até achar que vale a pena mostrar. Não quero mostrar qualquer coisa. O bom de tocar as músicas ao vivo é que você divide com as pessoas o teu processo. A reação das pessoas – se gostam ou não gostam – pra mim é importante. Eu não sou seguro como artista, eu não me acho um bom compositor, um bom letrista, um bom cantor. Eu sou meio ressabiado. Isso que eu fiz no show é algo que eu já faço entre amigos há alguns meses. E que talvez eu faça em outros shows, com outras músicas, não sei. Eu não planejo tocar uma música nova. Eu vou tocando e olho para a cara da galera. No caso, a galera do show no Rio era super interessada, super participativa, então eu resolvi tocar.
Você já sente o peso da expectativa dos fãs em relação ao seu segundo álbum?
Aí que está. Justamente por eu tentar manter essa relação de distanciamento dessa figura de artista e de pensar que tenho fãs, eu fico só com a minha cobrança, que já é sinistra. Como eu sou muito inseguro e realmente me cobro demais, não chego a sentir esse tipo de expectativa do público, até porque a galera que tem me acompanhado é muito carinhosa. Eu sempre acho que a música está ruim, eu sofro pra fazer música. O processo de fazer música é complicado pra mim. Eu fico tentando achar o que quero dizer e não consigo. E isso já é o suficiente.
Como você tem lidado com a essa insegurança e timidez neste último ano pelos palcos?
Eu bebo. Na verdade, eu fico muito nervoso, fico em pânico mesmo. É muita gente, cara. Eu não conheço as pessoas, mas as pessoas me conhecem. Então eu tomo umas (risos) e toco. Basicamente tem sido isso. Com o tempo, daqui a alguns anos, quando eu tiver mais maduro e blá blá blá, talvez o cenário seja outro.
Assista ao making of do videoclipe de Laiá Laiá



















julho 18, 2012 às 15:18
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